Manguelist #9 :: Manguebeat, a Cena

Manguebeat, a Cena

por Bruno Picchi

A terceira e última parte do press release lançado enquanto manifesto em 1992 no Jornal do Commercio do Recife é o eixo que norteia a Manguelist desta semana, sendo a seleção baseada em músicas autorais das bandas da cena Mangue e também em versões novas revisitadas pelas mesmas, como nos casos de “Minha Galera”, de Manu Chao, e “Garota de Ipanema”, de Vinícius de Moraes. A ideia é ouvir a roupagem que os sons dos mangues dão para as músicas que nós já conhecemos.

Mangue, a cena

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.

Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.

 

Nesta Manguelist você confere Mundo Livre S/A, Chico Science e Nação Zumbi, Jorge Cabeleira e o Dia Em Que Seremos Todos Inúteis, Devotos do Ódio DJ Dolores, Querosene Jacaré e Fernanda Abreu. Chila, Relê, Domilindró!

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